A queda do senador e um certo ceticismo resiliente
Paulo Felipe Noronha
A cassação de Demóstenes Torres é uma lufada de esperança, algo tépida, no ânimo do brasileiro. Ao menos daquele que realmente acredita num país mais honesto. Claro, o entusiasmo há de ser rapidamente contido, por uma série de razões, mas ainda há o que se comemorar, mesmo que a cassação de um reles senador esteja longe de ser o bastante. O correto seria lhe conduzir a uma prisão, onde pagaria pelos crimes que cometeu. E confiscar-lhe os bens, devolvendo à população o que lhe é de direito.
Mas passado o êxtase inicial, o que resta são as dúvidas. Seria esse apenas um momento isolado, tal qual foi com Luiz Estevão, o primeiro senador cassado, seria ele um bode expiatório, ocasional, seria Demóstenes um daqueles salafrários menos afortunados, menos capaz de conjurar o suporte de companheiros do crime, para os quais não há amizade, apenas um torpe jogo de interesse?
Visto por esse prisma, por mais que se tente valorar a resposta dos senadores perante a sociedade, tudo que resta é um grande ceticismo. A figura bufona de Collor de Melo e do ancestralíssimo Sarney, sempre presente na casa legislaativa, apenas aprofundam um odor acre que exala de todo esse imbróglio.
Mas acima de tudo, resta uma última pergunta: seríamos nós, brasileiros, capazes de mudar? Quando a corrupção é tão endêmica, que o sujeito que leva vantagem sequer consegue discernir o certo do errado, e muito menos deseja fazê-lo, quando as práticas de pequenos e grandes golpes estão tão entranhadas no próprio núcleo cultural da sociedade; aguardar mudanças nas esferas de poder parece uma tolice enorme. Seria muito mais crível acreditar numa mudança de baixo pra cima do que o contrário. Clichês como “você deve ser a mudança que deseja” são ao mesmo tempo cansativos e ofensivos em sua verdade. Especialmente por serem tão comumente ignorados.
Talvez o mais impressionante de tudo o que chegou para nós dessa história, seja o discurso do próprio Demóstenes, pouco antes de sua cassação, onde clamou: “por que vocês não me dão a mesma chance que outros, antes de mim, também tiveram? Também quero ter direito à ampla defesa!”. Naturalmente, a ampla defesa aqui mencionada é a impunidade, tão comum e cara aos espertalhões. Mas para nós, cidadãos, num país onde todos parecem evitar olhar a verdade na cara, a o pendor para transgredir é quase celebrado, a moral achincalhada, a pergunta do senador adquire outro sentido: afinal, ele é só mais um a incorrer nos mesmos vícios com que tantos outros, antes dele, se safaram.
Talvez seja apenas o pessimismo falando mais alto. Mas convenhamos: entre Lulas e Malufs, a escolha se resume entre cruzes e espadas.
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