Coisas de ontem... e de hoje II.
O mesmo grupo, agora acrescido de mais dois casais no limiar da tal “terceira idade”, continua reunido a festejar a meia ociosidade, conquistada ao longo do tempo; mulheres a cuidar do batente doméstico, educação dos filhos, e homens no emprego ou nos negócios a prover o sustento do lar. Na mesa, cerveja para a maioria cervejeira, batidas de limão para dois ou três, sucos e outros líquidos leves para as mulheres não iniciadas nos prazeres proporcionados pelos eflúvios alcoólicos. De vez em quando, da cozinha vem grande bandeja de tira-gostos, diversos e quentinhos, que não chegam a esfriar antes que o último seja consumido.
– Estou surpreso com essa ascensão do ora pro nobis – comenta Tatão do alto dos seus sessenta e tantos anos, e prossegue. – Saí daqui ainda adolescente e, lembro-me bem, o ora pro nobis era comida de pobre. Lá em casa, a gente comia sempre; e era uma festa! Depois disso nunca mais comi e nem ouvi falar sobre tal planta.
– Quanto a isso, foi bom porque sobrou mais ora pro nobis para nós (risada geral) – interveio o Manelão, sempre pronto para tirar sarro com a cara de alguém. Tatão acrescentou:
– É bom observar que havia dois tipos de ora pro nobis. Um de muitos espinhos pontiagudos e outro, espécie de cipó que se espalhava sobre cercas de bambu, não tinha espinhos e não era comestível.
– Aí é que você se engana – atalhou Chiquinha, mulher do Manelão – Não era comestível nesta região, pois me lembro de família nordestina, aqui chegada com turma de trabalhadores para as obras de abertura da estrada, hoje denominada Rodovia dos Inconfidentes. Eu era menina quando, certo dia, mulher que se dizia baiana, chegou à nossa porta e disse à mamãe que desejava comprar ora pro nobis para o almoço. Foi-lhe dito que lá em casa não havia ora pro nobis. A mulher contestou, dizendo que vira a planta na cerca. A mamãe, então lhe disse que se o que procurava era aquele, ela podia apanhar o quanto quisesse. Só então se soube que aquela espécie era também alimento para outras pessoas. Quanto à espécie espinhenta, apreciada por nós outros, é conhecida também pelo nome de lobrobô. É interessante notar que, assim como pessoas se promovem socialmente, também vários itens da culinária sobem degraus na escala da apreciação. Aconteceu assim com a “feijoada”, com o “feijão tropeiro” e outros pratos de destaque na cozinha brasileira.
– E o que vocês pensam do umbigo de banana?
– Ora, Lazinha, esse foi o prato típico, por excelência, de Cachoeira do Campo – explica a Dolores, que prossegue – Ficou muito tempo no esquecimento, época em que a cultura local esteve mais vulnerável às novidades trazidas por pessoas de outros pontos do país. Somente agora está ressurgindo, até em restaurantes! Chiquinha ouve com interesse aquelas observações e intervém:
– Você não sabe que, há pouco tempo, alguém me pediu sugestão de prato típico local, a ser apresentado em programa televisivo. Indiquei o umbigo de banana. A pessoa esbugalhou os olhos e lascou a pergunta: “mas isso se come?”. Acabaram por apresentar receita interessante e muito boa, mas sem nada a ver com a culinária local. As pessoas têm vergonha da comida que foge ao convencional ou não figura em cardápio de restaurantes. Curiosamente, depois disso, embora tenha sido desdenhado para apresentação na TV, o prato ressurge, já se destaca em cardápios de restaurantes e, para quem deseja preparar a iguaria em casa, o umbigo de banana, in natura, é encontrado em casas de hortifrutigranjeiros. Sem muita participação direta na conversa, assim como outros mais no grupo, mantendo-se mais como ouvinte e solidário nas gozações, o Mário entrou finalmente:
– Uma coisa me intriga. Como surgem essas comidas, um tanto exóticas ou fora do comum? Mero acaso?
– É a necessidade que faz o sapo pular – inicia Tatão sua resposta à curiosidade exposta – à falta da comida convencional, apela-se para o que se encontra à mão. Povoada inicialmente por garimpeiros de ouro, gente não afeita ao cultivo, esta região pode ter sido ponto de descoberta de outras fontes alimentícias, especialmente por ocasião da grande fome grassada em Ouro Preto, nos seus primórdios. Diversas plantas podem ter sido inseridas no cardápio popular, a maioria já retirada, mas podem ter ficado algumas. Quanto ao umbigo de banana na antiga culinária de Cachoeira do Campo, o estímulo ao seu consumo teve também como fator a grande produção de bananas nesta região. Duas árvores não faltavam nos antigos quintais locais: jabuticabeira e bananeira. Foi a vez de Manelão voltar com seu ar de deboche:
– Dizem que o pessoal daqui aprendeu a dar descarga no vaso, puxando folha de bananeira! (gargalhada geral).
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Nylton Gomes Batista
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