Coisas de ontem... e de hoje XI
Barulhento quando nele se remexia, o colchão de palha provocou outro tanto sob forma de risos, chacotas e gargalhadas, especialmente, em torno da Dorinha que se revelou “inocente” até mesmo em relação à existência daquele colchão na infância dos demais ao seu lado. Inteiramente receptiva às gozações, ela ainda provoca o grupo: – pelo que deduzi, o colchão não era tão ruim assim e ainda era motivo de diversão quando, em mutirão, a família se reunia para sua confecção, sem contar, para os maldosos e sádicos, a oportunidade de causar incômodos a terceiros.
– De fato, Dorinha – é Quinzão quem se manifesta – tudo é relativo. Em seu momento e por quem não conhecia outro, o colchão de palha era o melhor, assim como qualquer situação vivida por alguém, antes de passar ao estágio seguinte. Só se pode medir a qualidade de algo, conhecendo-se outro com o qual se faz comparação.
– Este é um dos aspectos que tornam a vida interessante – diz Chiquinha – imaginem só, se tudo fosse igual, para cada um de nós, do nascimento à morte. A monotonia nos aniquilaria em pouco tempo. Ao ser humano são dadas oportunidades de muitas experiências, cabendo a cada um a decisão de vivê-las ou não. E é essa decisão, puramente pessoal, em cada momento, que determina o curso da vida. A nossa geração teve infância desprovida do mínimo em conforto conhecido hoje, porém teve experiências que a prepararam para o que é atualmente, independente do que tem.
– Interessante em sua observação, Chiquinha – intervém a Narita – é que uma das experiências pelas quais passamos está justamente na confecção dos colchões. A família era pobre, porém, dotada do espírito solidário e de cooperação, suficientemente forte para impedir que filhos fizessem cobranças aos pais e se unissem no trabalho de satisfazer aquela necessidade para o repouso noturno.
Lazinha que, como o Mário, pouco fala dá sinal de sua presença: – Entende-se o que você quer dizer. Famílias menos pobres iam ao colchoeiro, que lhes fornecia colchões de capim. Filhos de pais mais pobres compreendiam a situação; por isso, o esforço comum na tarefa de fazer os colchões. Feita essa observação por Lazinha, a Chiquinha se dirige ao Quinzão: – parece que você quer dizer alguma coisa; diga, por favor.
– Lembrei-me de outra necessidade, cujo atendimento era tão recorrente à solidariedade como no caso dos colchões, feitos ou refeitos durante o período da seca, ou inverno. O período da estiagem era escolhido, creio eu, por dois motivos: a palha estava suficientemente seca para aquele uso e, durante o inverno, colchões renovados conservavam melhor o calor do corpo. A outra necessidade, resolvida também no período do inverno era com relação ao chão das casas que, por ser de terra batida, exigia manutenção anual. Para isso, contava-se também com a ajuda de vizinhos ou pessoas amigas, na mesma situação.
– É, rapaz, a coisa não era fácil – exclama Tatão – se em casa de pobre não havia mobília (como então se falava, referindo-se a móveis) sobrava tranqueira: grandes mesas com gaveta, baús, malas, caixas, caixotes, bancos, catres e outras trenheiras. Cada cômodo a ser restaurado tinha de ficar livre de coisas por, pelo menos, dois dias, tempo exigido para que o chão se acomodasse. Lembro-me bem desses detalhes, pois, a vida da gente virava um caos enquanto não se refaziam todos os cômodos da casa. Você se lembra, Manelão?
– Ora, se me lembro! Numa dessas ocasiões, quase levei uma surra! Papai chegou a tirar a cinta, mas a mamãe o impediu de me bater.
Aquela revelação provoca outra algazarra no grupo: – coisa boa você não fez; do chifre furado você é desde criancinha, hein? – sua mãe não devia ter impedido, pois essa coça faltou para que, hoje, tivesse mais juízo! – a coisa deve ter sido das brabas! – ao fim das gozações, Manelão continua:
– Vamos por partes. Depois de livre o cômodo havia que revolver o chão, valendo-se da picareta. Um revolvia e outro destroçava os torrões com o olho da enxada ou com outro objeto que servisse para tal. Concluída essa fase, usavam-se soquetes improvisados para comprimir a terra e se verificar o desnível, pois com o movimento de pessoas e a varrição doméstica muita terra se perdia. Em alguns pontos chegava a se formar buracos. Com regador jogava-se um pouco de água, só para amaciar a terra, socava-se e se verificava quanto de terra teria que ser reposta. Enquanto isso se fazia, alguém cuidava de arrumar terra nova, seca e livre de impurezas. Por isso, a recomposição do chão não podia ser feito no período de chuvas.
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Nylton Gomes Batista
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