Preparando o caminho para a velhice
O Estatuto do Idoso, ainda que documento oficial meio impositivo, é o meio pelo qual se compara o comportamento da sociedade em relação à sua parcela mais velha, desgastada pelo tempo e, na maioria das vezes, sobrevivente a duras condições de vida. Percebe-se que, de bom grado, os direitos lhe são reconhecidos pela população em geral, também candidata, em princípio, ao futuro alcançado por aqueles de faixas etárias mais avançadas. Para essa grande parcela, o Estatuto apenas regulamenta o inerente à ética do povo. É assim que, nas filas (exceto aquelas para aquisição de ingressos, bilhetes de viagem) e dentro dos coletivos os mais jovens cedem lugar, espontaneamente, aos maiores de sessenta, não havendo portanto, qualquer relutância ao que a própria consciência cidadã se antecipa ao Estatuto. Nos coletivos, entre os que se encontram sentados, costuma-se haver até certa pressa, para que os mais velhos tomem assento tão logo embarcam; preocupação justificada pela alta probabilidade de o idoso sofrer queda, em decorrência do movimento do veículo. Em contrapartida, comportamento inverso também existe. São as poucas exceções que confirmam a regra geral. Os despreocupados em relação às fragilidades do seu semelhante costumam fingir que dormem, ou não tiram os olhos do movimento na rua, para não ter que enfrentar a realidade ao seu lado. São jovens cansados, prematuramente ingressos na terceira, quarta ou quinta idade! Contudo, tal comportamento antissocial não deveria ter o sargento PM, em serviço, todo apetrechado (incluindo-se o colete aço) para o exercício de suas funções. O policial militar, folgadamente sentado, pouco se lixava para idosos que embarcavam no veículo já atulhado de passageiros em pé, embora sejam – ou deveriam ser – os de sua profissão, exemplos no exercício da cidadania. Discretamente observado, o PM mantinha-se de cabeça baixa, levantando somente os olhos para furtivas olhadelas ao redor. Em dado momento, lembrou-se ele da quarta parte do corpo humano (depois da cabeça, tronco e membros), o celular, também brinquedinho inseparável do homem (mulher também) do século XXI. Daí em diante fingiu atenção concentrada na engenhoca, onde movimentava os dedos, até chegar ao seu destino. Que a velhice lhe seja tranquila e suave, sargento... se chegar lá!
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