Inversão de valores
por Paulo Felipe Noronha
En passant pra quem acompanha a grande mídia, chegam relatos de uma invasão (me recuso a usar o termo ocupação) da reitoria da USP. O motivo? Segundos os estudantes que “ocupam”, várias pautas. O motivo verdadeiro? Fumar maconha em paz no ambiente público. Se não fosse assim, por qual razão teria sido esse o estopim? Pra quem não sabe, a invasão começou depois que a polícia, autorizada a policiar o campus devido a um assassinato lá ocorrido anos antes, deteve 3 estudantes que fumavam baseado, mas foi atacada por uma turba enfurecida doutros estudantes, que logo em seguida, entenderam de fazer a universidade de todos, a universidade DELES.
Recentemente, marchas em apoio à liberação da maconha foram reprimidas (erroneamente a meu ver) e talvez por isso os estudantes sintam a necessidade de acobertar suas reais intenções, com demandas mais “nobres”. E nisso, fazem uma ginástica desnecessária. Se até mesmo um ex-presidente fala abertamente sobre a necessidade de discutir o assunto, qual a razão da estratégia covarde por um lado, e extremamente ofensiva por outro? Talvez seja o fato de que o principal defensor dessa prerrogativa, de liberdade de escolha, carregue junto a si a pecha de neoliberal. É uma situação patética, onde mais vale o rótulo do que a ideia em si.
E no lado oposto do ringue, aparecem aqueles que dizem, usando o argumento ‘Tropa de Elite’, “é vocês que financiam essa ****”. Falando por mim, financio a corrupção no país, pagando meus impostos, e nem por isso me sinto responsável pelas decisões questionáveis dos nossos líderes. Concordo que nesse sistema em cadeia, nada é tão preto no branco quanto gostaríamos. Mas a lei é a lei. E fumar maconha ainda é crime. E isso não é zona de cinza. Assim, como não é zona de cinza que uma invasão de reitoria também é crime. E uma demanda justa não justifica o meio torpe que se usa para evidenciá-la, pelo contrário, invalida todo o processo. Quem desce ao nível de um opositor / opressor torpe também é torpe.
Em suma, é preciso ir um pouco além desse discurso de mídia manipuladora, como se as pessoas não pudessem pensar, e ver por si, o que acontece (ainda que prefiram, muitas vezes, fazer vista grossa).
Quem é contra a polícia num ambiente público, que acredita numa autogestão independente da sociedade, uma ilha de poder e ideias acima do bem e do mal, com regras próprias e relativizações extremas, são alienados sociais que se vêm como especiais, elitistas disfarçados de líderes, que não estão comprometidos, de fato, com a sociedade, mas apenas com os próprios interesses. Isso vale tanto para os políticos desonestos, para a mídia “manipuladora” e para os universitários da USP, proto-exploradores, abutres sociais.
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