Às vezes dá vontade
Às vezes dá vontade de desistir. A cada dia fica mais difícil. Fácil é não acreditar em nada, não confiar em ninguém, deixar a vida seguir ao seu bel prazer.
Às vezes fico cansada de lutar. De acreditar. De querer acertar.
Às vezes dá vontade de jogar tudo para o alto, seguir conforme os valores alheios, esquecer a própria vontade e personalidade, refugiar-se na benção do sono para esquecer.
Às vezes dá uma vontade doida de largar tudo prá lá, esquecer os valores “ultrapassados” e “antigos” pelos quais a minha geração foi criada.
Às vezes dá vontade de achar que drogas, violência, filhos matando pais, alunos batendo em professores, maridos espancando esposas, são coisas naturais, acontecimentos “modernos”, fatos normais.
Às vezes o cansaço é tanto que dá vontade de olhar para tudo isso, dizer “não é da minha conta” e seguir em frente. Dá vontade de puxar o saco do chefe prá subir na vida como todo mundo. De apoiar a falta de limites dos filhos para com os pais e total desrespeito de alunos com professores “bonzinhos”, para ficarem “bem na fita”, como eles dizem.
Às vezes sinto-me tão cansada por ainda acreditar na dignidade e nos valores do ser humano, que me vejo em um deserto de solidão.
Às vezes dá vontade.
Mas eu não posso deixar esta vontade me vencer. Preciso seguir com os meus valores “antiquados”, as minhas crenças “obsoletas” de “velha”. Velha eu, meu Deus! Eu que estou cheia de vida, no auge da minha produtividade, repleta de sensações, emoções e sentimentos. Mas eu sou velha. Nunca experimentei droga, nem maconha, dá prá acreditar em uma caretisse dessas?
Eu sou velha mesmo, no meu tempo não existia crack, nunca tinha ouvido falar em AIDS, e – pasmem – sempre respeitei meus pais e professores. Meu Deus! Pasmem mais ainda, se eu os desrespeitasse, eles me repreendiam. Como eu sou antiga! Os meus pais chamavam a minha atenção quando eu era criança, e os meus professores tinham autoridade sobre mim. Velha? Acho que estou é idosa, mesmo. Com todos esses valores “ultrapassados”...
Às vezes dá vontade de não questionar, de não ir contra a maré, de deixar o mundo explodir em desrespeito e desumanidade.
Às vezes dá vontade. Mas – bendito seja Deus – a vontade passa. Porque, se essa vontade vencer-me, perderei o maior de todos os valores que possuo: a esperança. O ser humano sem esperança já morreu e não sabe.
Vivi recentemente uma decepção tão violenta que a vontade não venceu por um triz. Mas eu consegui ser mais forte do que ela. Eu preciso manter, com muito orgulho, os meus valores “antigos”.
Ainda acho que filho tem de respeitar pai e mãe, que marido não pode bater na esposa, que professor não pode ser achincalhado por alunos em nome da “modernidade”.
Sim, às vezes a decepção é tanta que dá vontade de desistir. Mas maior do que a decepção é a esperança. Feliz de quem tem esperança neste mundo de desesperança e valores torpes.
Às vezes sinto vontade de desistir. Mas a minha esperança me segura. E que Deus não me permita desistir jamais. A vida não merece isso de mim.
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