Alterações para tapear
Não bastassem as vidas perdidas e o extenso prejuízo em decorrências das enchentes e deslizamentos em grande número de municípios capixabas, fluminenses e mineiros, Ouro Preto no meio, outra tragédia provoca comoção nacional; desta vez com o desabamento de três edifícios no centro histórico do Rio. Sem qualquer denúncia de iminência de queda, como rachaduras, afundamento e outros sinais característicos, manifestos muito antes que venha o sinistro, o mais alto dos três desabou sobre si próprio, afetando dois outros contíguos, que o seguiram na queda. Isso indica que o desabamento não foi desfecho de processo contínuo de deterioração, que culminou em perdas de vidas.
Maior não foi o número de vítimas porque o desastre se deu à noite, e, sendo os imóveis de natureza comercial, pouca gente ali se encontrava naquele momento. O prédio, segundo o noticiário, contava mais de setenta anos, mas não apresentava problemas estruturais, assim como muitas outras edificações similares em qualquer lugar.
Não havendo, ainda, resultado pericial, não se pode dizer, oficialmente, qual foi a causa. Contudo, a partir de informações partidas de pessoas que tinham acesso ao edifício, ou que lá trabalhavam, sabe-se que obra de grande monta se realizava em dois andares, um mais próximo à base e outro à metade do prédio; e que, segundo essas mesmas informações, alterações seriam suspeitas de interferência em sua estrutura. Por enquanto, é apenas conjectura, hipótese, que serve como ponto para discussão do público, enquanto a verdade não vem a lume.
Dentro desse mesmo espírito, da discussão sobre hipótese, tento ver o porquê de alterações tão radicais no espaço relativo aos pavimentos supostamente em obras. A espécie humana traz latente a tendência para contestar, contrariar e alterar o estabelecido, o que, de certa forma, contribui para sua evolução. Enxergar sempre um ponto além, onde poder chegar com segurança, deveria ser o objetivo de cada indivíduo, que pretende progredir em qualquer setor em que atue. Mas, nem sempre metas eleitas estão à frente, ou seja, no puramente novo ou estágio superior, mas na alteração do existente, do estabelecido, do já consagrado. Não importa que o existente esteja a cumprir seus objetivos de acordo com as necessidades e expectativas, pois o que vale é a alteração em si, para satisfazer desejos de se impor e o desafio ao estabelecido, ainda que à custa do prejuízo de outrem ou da própria coletividade. Essa é também a arma dos frustrados, conscientes de que a solução está além de sua capacidade.
O desejo de contrariar ou derrubar o estabelecido, no âmbito coletivo, tem sua variante no individual com a insatisfação em relação até ao próprio corpo, levando pessoas a alterá-lo, sem pensar em consequências, que podem ser danosas. Os modernos batoques (piercings) e as tatuagens constituem alterações, a princípio inocentes, que podem impor seu preço no futuro, tanto no campo da saúde quanto no da liberdade individual. Qualquer pessoa pode se ver, de repente, em circunstâncias que peçam sua oclusão dentro da sociedade, para escapar de perseguição injusta ou de situação de perigo. Marcada como gado por tatuagem, dificilmente conseguirá se esconder! Esta é apenas uma das consequências, que intervenção voluntária no aspecto do corpo pode causar.
Ao argumento de que cada qual é dono do próprio corpo, respondo que ninguém é dono do próprio corpo. Este é “emprestado” pela natureza, para que aí se manifeste a vida; devendo, depois da morte, ser devolvido à sua origem mediante autorização da autoridade pública, ou seja, do Estado constituído. Sobre os cuidados naturais com o corpo e sua saúde tem prevalecido o culto à sua forma e beleza estética preconcebida, valendo, para a busca do idealizado, a prática excessiva de exercícios físicos, de dietas desassistidas - mesmo porque são tão estúpidas que não há autoridade médica que as recomende - além de cirurgias estéticas em centros não recomendados. Não poucas pessoas têm pagado com a morte tal ousadia! No fisiculturismo e na prática de esportes, o organismo é agredido com ingestão de substâncias perigosas, visando à superação de marcas ou recordes.
Nem o campo das ideias tem escapado às investidas dos que, ao invés de avançar e conquistar novas posições, teimam em alterar o já conhecido, consagrado e aceito por todos, só para ser diferentes ou para levar vantagem. O princípio, segundo o qual o poder cabe à maioria dentro da totalidade, tanto para se reunir quanto para decidir, já é subvertido pela imposição da presença da totalidade, para que sejam tomadas decisões. Subverte-se, assim, o conceito de democracia em favor do grupo no comando da situação, pois não havendo interesse na votação de determinado assunto, um do grupo se ausenta e tudo se empaca. Mantêm-se as aparências de democracia, enquanto impera a tirania da minoria.
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Nylton Gomes Batista
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